Alguns Contos de Amor Rasgados

Marina Colasanti é foda e é difícil entender por que ela é tão esquecida nas rodinhas de intelectuais e bons pensadores. Gosto dos mini-contos dela, pois são poderosos, divertidos e rapidamente se apresentam, desenvolvem e se concluem maravilhosamente— mostrando que poucas linhas podem ter mais literariedade do que longos textos.

Os continhos a seguir foi retirado de seu livro Contos de Amor Rasgados (cheio de pérolas).

Contos Em Letras Garrafais

Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem, e a entregava ao mar.

Nunca recebeu resposta.

Mas tornou-se alcoólatra.

Enfim, Um Indivíduo De Idéias Abertas

A coceira no ouvido atormentava. Pegou o molho de chaves, enfiou a mais fininha na cavidade. Coçou de leve o pavilhão, depois afundou no orifício encerado. E rodou, virou a pontinha da chave em beatitude, à procura daquele ponto exato em que cessaria a coceira.

Até que, traque! Ouviu o leve estalo, a chave enfim no seu encaixe, percebeu que a cabeça lentamente se abria.

A Paixão Da Sua Vida

Amava a morte. Mas não era correspondido.

Tomou veneno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás.

Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço.

Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estourou-lhe o coração.

A busca da razão

Sofreu muito com a adolescência.

Jovem, ainda se queixava.

Depois, todos os dias subia numa cadeira, agarrava uma argola presa ao teto e, pendurado, deixava-se ficar.

Até a tarde em que se desprendeu esborrachando-se no chão: estava maduro.

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