Enquanto eu me admirava com a beleza da vida perto de mim

O primeiro conto do blog! Tava faltando um pouco de literatura por aqui mesmo, né? O texto foi escrito por Marco Antonio Rocha, um amigo que é quase irmão, e aqui ele fala de encontrar a beleza num inseto e depois perdê-la para sempre.

Enquanto eu me admirava com a beleza da vida perto de mim, na esquina da minha rua pessoas morriam. Era um inseto, diferente, parecia mosquito, tinha as asas prateadas. Os cachorros latiam, vozes de homens gritavam. O inseto de asas incomuns voou quando me aproximei. E os homens pararam de gritar; ouvi tapas. Os cachorros não pararam, não tão cedo. E o inseto nunca voltou. Se morreu, ninguém nunca o encontrará; é o ser mais lindo que já vi e o mais insignificante. Se morreram, todos saberão daqui a algumas horas; são os seres mais asquerosos que já vi e os mais importantes.

É, ele não voltou. E aqueles bêbados não morreram. Que pena. Que pena. Ambos os casos ficam ainda mais tristes ao som de um blues. “I put a spell on you”.

Paredes riscadas. Piano. Chocolate (branco). Ratinho roxo sobre a escrivaninha. Lapiseira e caderno aberto. Retratos. Maria Luiza. Percussão e Piano. Mosquitos. Palavras sem sentido escritas uma a uma, pensadas em conjunto — por vezes separadas. Sensações indescritíveis, momentos indesejáveis. Acostumou-se a não chorar… nem o blues, nem o blues… e aquele ser insignificante que nunca mais verei. Por que escapou de mim? Eu nem me esforcei para segurá-lo. Não restou nada dele, a não ser o encanto que provocara em mim. Nada mais.

Nevermore, disse o corvo. Ao som da melodia, eu me despeço de ti, inseto que mudou minha vida por segundos. Permaneço no mundo enquanto você voa para além. Sobram-me os bêbados da esquina. E o blues.

2 comentários sobre “Enquanto eu me admirava com a beleza da vida perto de mim

  1. Eu lembro que um escritor (mas não lembro qual) disse uma vez que havia beleza demais no mundo. Ele pediu a Deus que o defendesse da beleza, porque ela está sempre a espreita, e pode ser encontrada por toda a parte: num som, no título de um filme, num livro, no toque do sol, num inseto… Nesses detalhes que a gente só encontra na falta de pretenção… por acaso… como no blues, simplesmente intuitivo… como nas coisas que o Marco escreve ^ ^

    1. Concordo, Yara! A gente tem mania de procurar beleza só em coisas grandiosas, mas ela também existe nas pequenas coisas, é só saber olhar.

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